Sábado, 16 de Setembro de 2006

Com os últimos raios de sol..

Ela baloiçava-se em rede de pensamentos, levando aos lábios, de vez em quando, a frescura de um néctar de transparência celeste, trauteando uma mistura de melodias fora de moda.
De súbito, surgido por entre a poeira do caminho serpenteia um carro devagar chegando até ela.
Descalça e vestida levemente de beije veio ao encontro dos olhos, que sorrindo criavam sensações que se entrelaçavam nas folhas de palmeiras e vinham na brisa fazendo-a levitar.
A camisola dele colava-se-lhe às costas e os dois botões desabotoados deixavam ver o peito nitidamente desenhado e um fio muito fino que brilhava aos últimos raios de sol.
Da pergunta que ele lhe fazia conseguiu apanhar algumas palavras, avaria, oficina…as outras perderam-se por entre vales que nem se avistavam dali…
Fitou-a directamente e ela sentiu uma perturbação interior. Os olhos de ébano, a cara bronzeada, o cabelo de azeviche pincelado de prata, a maneira desenvolta de andar, agitaram-lhe sensações irresistíveis. Impressões que ordenam de novo o espaço molecular entre macho e fêmea e que não depende das espécies. Ali, naquele instante, confirmou a si própria que as sensações ainda são inabaláveis possuidoras de um poder genuíno. Tão simples quanto o néctar transparente com sabor celeste com que ela se refrescava naquele fim de tarde…
 
 
 

Não sabia se eram os jeans dele levemente justos ou se era a maneira desenvolta que já lhe tinha notado no andar que a fizeram estremecer. Ou seria a brisa por entre as folhas das palmeiras como risinhos zombeteiros dançando cúmplices no ar?...

E ele aproximou-se mais, tanto que lhe pode sentir o seu cheiro…

Finalmente a resposta:

- Sei de uma oficina se é que assim lhe podemos chamar a poucos quilómetros daqui, não sei é se consegue encontra-la neste fim de mundo…

- Serei ousado se lhe pedir para ir ensinar-me o trajecto? Prometo que não serei uma companhia muito importuna…

- Vou! – Foi só a palavra que conseguiu articular quase num grito como se tivesse medo que ele fosse sozinho e nunca mais o tornasse a ver.

Entrou no carro e ele sorriu:

- E agora para onde?

Ela sentiu-se como uma adolescente em falta, ruborizada com os pensamentos que lhe afloraram a mente…

- É para a esquerda e depois sempre em frente por esse trilho estreito.

E seguiram aos solavancos por entre o pó do difícil carreiro…

- Sou o Luciano e faço parte de uma equipe que tem como função estudar o impacto ambiental, neste caso procuramos investigar os prós e contras de uma estrutura turística que se pretende construir perto daqui.

- Ah, sim, ouvi falar, ainda não pensei sobre isso… (Meu Deus, como poderia ela encontrar uma resposta coerente se lhe sentia o respirar e esse simples e quase inaudível ruído que lhe desorganizava sensações que se confundiam em torvelinho?!)

(Foi uma tentativa literária, é assim que se diz?! Os últimos raios de sol ainda aquecem a caixinha cinzenta e depois é o que dá! Dá nisto, príncipes e princesas, machos e fêmeas transportados para uma redacção! Boa semana!)
Escrevinhado por gaivota da ria às 00:10
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17 comentários:
De Jorge G. a 16 de Setembro de 2006 às 09:15
Bom exercício de prosa poética, Gaivota.
Foge às banalidades lamechas e dá-nos o lado erótico feminino quando observa e não quando se faz observar.
Algumas imagens poéticas de muito bom-gosto ( ..."veio ao encontro dos olhos..." / "...sensações que se entrelaçavam nas folhas de palmeiras" )
Quem sou eu para o dizer, mas parece-me estarmos na presença de alguém que sabe escrever.

Um beijinho
Jorge
De ciloca a 16 de Setembro de 2006 às 17:48
Jorge tens toda a razão...a gaivotinha esvreve bem.
De tron a 16 de Setembro de 2006 às 14:47
ontem vin que cortaram os raios de sol a uma inocente de dois anos e ninguém faz nada para o eivitar
De Andesman a 16 de Setembro de 2006 às 15:23
Foi uma tentativa bem conseguida. Espero pela continuação...tem continuação não tem? Jinhos, bons ventos e estrelas brilhantes no teu céu.
De ciloca a 16 de Setembro de 2006 às 17:46
O calor e o Verão provocam em nós sensações agradáveis,ficamos mais sensuais, mais vulneráveis ao amor, sensações irresistiveis, sim . Gostei....bjs
De Tucha Santos a 17 de Setembro de 2006 às 12:56
Querida gaivota, todas as suas "tentativas" literárias, são mto bem conseguidas e de óptimo gosto. Por mim, fico a aguardar a próxima...Beijokas com votos de um belo domingo.
De Augusto Brilhante Ribeiro a 17 de Setembro de 2006 às 15:48
Ai gaivota, gaivota...
Que as asas te cresçam para voos mais altos.
Um dia destes havemos de nos pegar os dois a escrever um conto.
Talvez seja giro cada um de nós escrever um pouco e o outro completar.
Que tal? Aceitas o desafio?
Fico a aguardar em prinfor@netc.pt
Beijinho.
De aflores a 17 de Setembro de 2006 às 22:04
Olá Gaivota! Saudações Bloguistas ;) Eu bem olhei para o céu mas nada, nada da gaivota da Ria. Ou então fugiste de mim.....e digo isso no meu blog :):):) Boa semana.
De José S. a 18 de Setembro de 2006 às 00:21
Gaivota... eu já nem tenho nada de novo a acrescentar, tais foram os elogios dos que me antecederam. Quem nos dera que todas as tentativas literárias, postas à venda nas livrarias, nos transportassem às sensações dos últimos raios de sol e que apenas elas (as sensações) fossem importantes. A vida (e os pensamentos) leva-nos para tão longe das sensações...
Beijitos e boa semana.
De gaivota da ria a 18 de Setembro de 2006 às 01:08
Não reparaste que havia poeira no caminho, Zé?! Caminho, vida...

Inventemos então sensações como um antídoto.
De jpcfilho a 18 de Setembro de 2006 às 08:59
Olá Gaivotinhadaria, então uma tentativa literária né?... Pois a menina leva jeito, é só ir esticando e continuar para qu a gente veja o calor em que vai dar, já estou aflito...beijos
Espelhodesombras
De Zalinha a 18 de Setembro de 2006 às 14:33
O que o sol faz as pessoas;) bem espero que apesar de o solinho estar a prepara-se para partir,que a inspiração não vá com ele para que possamos continuar a lêr coisas lindas por aqui:)

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